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As Lágrimas do Papa Leão XIV

Taiguara Fernandes

No século, ele era Robert Francis Prevost. Mas, quando apareceu na sacada da Basílica de São Pedro, tinha um novo nome: Leão XIV.

A impressão inicial causada pelo novo Papa despertou reações mistas.

De um lado, o semblante sereno e o sorriso contido, de uma alegria afável, provocaram imediatamente simpatia em grande parte do orbe católico. Parece que tínhamos ali uma pessoa doce e amável, em quem o senso dos fiéis rapidamente discerniu um pai. E os dias subseqüentes, de fato, revelaram que era assim mesmo.

De outro lado, houve também uma atitude de cautela. Afinal, era conhecida a predileção do Papa Francisco pelo Cardeal Prevost, o que aconselhava dosar as expectativas e não fazer juízos apressados em público – em uma palavra, esperar. Mas, mesmo entre esses, não deixou de causar forte impressão testemunhar o novo Papa apresentar-se como um Papa – de mozetta vermelha, de estola pontifícia, com uma bela cruz peitoral dourada e um latim bem pronunciado. 

A escolha do nome também surpreendeu: Leão. Não escolheu Francisco II, nem João XXIV, nem Paulo VII, nem João Paulo III – todos nomes que indicariam um programa mais moderno e continuísta. Ao invés, Prevost foi buscar um nome de tradição papal, anterior ao Vaticano II (o outro Papa que fez isso foi Bento XVI).

O nome agradou a uns e desagradou a outros. Em todo caso, houve surpresa: ninguém esperava um Leão – menos até que um Pio.

Devo dizer, com sinceridade, que eu estava entre os que, inicialmente, adotaram uma postura mais cautelosa, ainda que apreciasse tudo isso. Mas nem mesmo a cautela fez com que um elemento específico daquela cena parasse de martelar em minha cabeça e despertasse o meu coração – e foi esse elemento que acabou provocando em mim uma intensa reflexão, a qual originou esse texto: eram as lágrimas do Papa.

Graças às filmagens de alta resolução de que dispomos hoje, pudemos ver o rosto do Papa mais de perto dessa vez. Não passou despercebido a ninguém que o Papa estava emocionado e chorava. Os olhos de Leão XIV brilhavam com lágrimas e conseguíamos ver o contorno do líquido e uma leve vermelhidão. 

Não era desolação ou deslocamento: o Papa chorava como quem acabasse de dizer um fiat, “faça-se”; como quem acabasse de resignar-se ante uma Vontade Superior que lhe impusera uma cruz – aquela cruz.

De fato, no dia seguinte, na Missa com os Cardeais na Capela Sistina, para desapontamento de quem esperava um programa político, Leão XIV só falou de Cristo no centro de tudo. E confirmou: Vós chamastes-me a carregar esta cruz e a ser abençoado com esta missão”. As lágrimas do Papa, então, eram mesmo de um fiat.

Pelo que parece, nosso novo Papa possui predileção pelo tema do martírio – afinal, é um missionário. Eu não duvido que esse tema venha, inclusive, a ser tratado magisterialmente. Para conhecer Robert Francis Prevost, busquei material dele e sobre ele. Assisti a homilias e ouvi conferências. Pude perceber que o tema da cruz e do martírio é recorrente em sua pregação: numa homilia na Igreja de St. Jude, em New Lenox, Illinois, em agosto de 2024, quando já era Cardeal; antes disso, como Bispo em Chiclayo, no Peru, a jovens estudantes; antes, como Prior Agostiniano, comentando, em uma entrevista, a explicação de Bento XVI sobre a cor vermelha de um Cardeal – o sangue a ser doado por Cristo; e agora, novamente, como Papa, em sua primeira Missa, na homilia aos Cardeais. 

Sabe-se também que a cruz peitoral de Prevost, com a qual ele apareceu na sacada de São Pedro, contém, em seu interior, relíquias dos santos, entre os quais Santo Agostinho e Santa Mônica, mas também um mártir: o Beato Anselmo Polanco, bispo agostiniano martirizado pelos comunistas por ódio à fé, durante a Guerra Civil Espanhola, fuzilado e, depois, queimado com gasolina. 

Até a data de nascimento do Papa é significativa: 14 de setembro – Festa da Exaltação da Santa Cruz.

Nesse momento, minhas reflexões sobre o que simbolizavam as lágrimas do Papa começaram a me levar a outras paragens. Para um estudioso de símbolos, como eu, realizar a descompactação ou diferenciação de sentidos em um símbolo é um exercício empolgante e, por vezes, recompensador, pois pode conduzir a estágios de compreensão que, a princípio, nem sequer imaginávamos.

As minhas reflexões a seguir, é claro, não possuem o propósito de afirmar que esses sentidos foram desejados e voluntários. Contudo, sendo Deus o Senhor da História, bem como Logos que sustenta a raison d’être da realidade, todos esses sentidos foram, de alguma forma, pensados e queridos por Ele. É justamente nisso que se encontra a beleza do símbolo e de suas múltiplas intelecções, especialmente quando nos dedicamos a ler o Livro da Providência. Afinal, Deus nos fala por palavras, mas também pelas coisas – o exercício não deixa de ser edificante.

Leão XIV e a visão de Leão XIII

Comecemos pelo fato, que foi rapidamente percebido no mundo católico, de que o dia da eleição, 8 de maio, era também o dia da Aparição de São Miguel Arcanjo no Monte Gargano. Justo nesse dia, o novo Papa escolhe se chamar Leão, que era também o nome do Papa que escreveu o famoso Pequeno Exorcismo de São Miguel Arcanjo (São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…), seu predecessor, Leão XIII, que mandou rezar essa oração ao fim de todas as Missas (nas, por isso, chamadas orações leoninas).

Mas há um outro pormenor que foi menos percebido. 

Já é bem conhecida a história, por diversas fontes fidedignas, de que Leão XIII compôs a Oração a São Miguel Arcanjo após ter recebido uma visão dos ataques infernais contra a Igreja no século vindouro, visão da qual saiu lívido e aturdido. 

Nessa visão, o Papa teria testemunhado um diálogo entre Deus e o Demônio, no qual Satanás pede um tempo livre para causar mal à Igreja e destrui-la. Tornou-se famosa a versão de que, no diálogo, Deus concedeu um século a Satanás para sua tentativa fracassada, ao fim do qual disse que “acertariam as contas”.

Pois bem, segundo Kevin Symonds, no seu estudo Leão XIII e a oração de São Miguel, a visão parece ter realmente ocorrido “em algum momento entre 6 de janeiro de 1884 e agosto de 1886”, que corresponde ao “período entre as duas modificações das Orações Leoninas”1 foi na última modificação, em 1886, que ele incluiu o Pequeno Exorcismo. 

Em sendo assim, o século pedido pelo Demônio, se contado da visão do Papa Leão XIII, iria até 1984-1986 – isso não quer dizer, evidentemente, que os efeitos de suas ações seriam encerrados ali. Esse período de 100 anos, desde a visão, nos leva a uma circunstância providencial: Robert Francis Prevost foi ordenado sacerdote em 1982 e assume a missão agostiniana de Chulucanas2, no Peru, em 1985 – precisamente ao fim dos 100 anos, desde a visão. É provável que Prevost não teria sido eleito Papa se não fosse essa missão no Peru, que o fez conhecer Bergoglio e que aliviou também as resistências a sua nacionalidade norte-americana.

Outras versões sobre essa mesma visão afirmam que o tempo pedido por Satanás não fora de um século, mas de 60 anos (relatos do Padre Domenico Pechenino e do Cardeal Pedro Segura y Sáenz, colhidos por Kevin Symmonds3). Mesmo se considerarmos esse outro período, existe uma coincidência incrível: Prevost está sendo eleito Papa no ano de 2025, aos 60 anos do término do Concílio Vaticano II, que ocorreu em 1965. 

Não é preciso fazer um juízo sobre o Concílio para reconhecer que, no período posterior a ele, a crise na Igreja atingiu níveis inimagináveis, a ponto de Paulo VI, o próprio Papa que encerrou o Concílio, ter afirmado, em termos muito semelhantes àqueles da visão de Leão XIII, que: 

“Acreditava-se que, após o Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Veio, ao contrário, um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza.”

Cremos em algo preternatural vindo ao mundo precisamente para perturbar, para sufocar os frutos do Concílio Ecumênico e para impedir que a Igreja irrompesse no hino de alegria por ter readquirido plenamente a consciência de si mesma.”

“[Penso] ter sido a intervenção de um poder adversário. Seu nome é o diabo, esse ser misterioso ao qual se faz alusão também na Carta de São Pedro.”

“[Existe a] sensação de que por alguma fenda tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus. Há dúvida, incerteza, problemática, inquietação, insatisfação, confronto. Já não se confia mais na Igreja.”

Essa homilia tornou-se célebre pela sinceridade do Papa. Os termos e a menção a um poder preternatural adverso, o Diabo, são um eco da visão de Leão XIII, quase um século antes. Era o dia 29 de junho de 1972, Solenidade de São Pedro e São Paulo. Uma década depois, em junho de 1982, Prevost foi ordenado sacerdote.

O futuro dirá se a eleição de um novo Papa Leão, após 60 anos do término do Concílio Vaticano II, é o fechamento da visão do Leão anterior.

Considero, de todo modo, um verdadeiro sinal dos tempos que tenhamos um Papa chamado Leão nesse momento. Como Leão XIII, em sua época, que conduziu a Igreja para o século XX, Leão XIV também será chamado a conduzir a Igreja em um tempo de enorme transição, às vésperas do Jubileu da Redenção, em 2033, com o projeto globalista da Agenda 2030 às portas.

Leão XIV e a Rainha da Paz

O embate espiritual da visão acima é a raiz do embate no mundo. Também aqui encontramos alguns sinais confortantes da Providência Divina.

A primeira saudação de Leão XIV foi a saudação do Cristo Ressuscitado: A paz esteja convosco. Desde então, o novo Papa tem vocalizado constantemente o tema da paz e condenado as guerras no mundo. Não fala, porém, de uma paz sentimentalista e abstrata, mas fundamentada na verdade.

Uma prova disso é o seu Discurso aos Jornalistas, no último dia 12 de maio de 2025, no qual atrelou a Bem-Aventurança da Paz, no Sermão da Montanha, não a um “consenso a qualquer custo”, mas à “busca da verdade” amparada no “amor com que humildemente a devemos procurar”

Em 1917, em plena Guerra Mundial, um outro Papa teve essa preocupação. Foi também num mês de maio, no dia 5, que o Papa Bento XV mandou incluir a invocação Regina Pacis, ora pro nobis (Rainha da Paz, rogai por nós) na Ladainha de Nossa Senhora, para implorar a paz ao Coração de Jesus pela intercessão de Sua Mãe4. Apenas oito dias depois dessa inclusão, a Santíssima Virgem respondeu aos apelos do Papa Bento XV e da Igreja, aparecendo em Fátima, Portugal, no dia 13 de maio de 1917.

Na situação não menos difícil de um mundo à beira de uma Terceira Guerra Mundial, que seria muito mais destrutiva e suicida que as duas primeiras, guerra que já vem ocorrendo “a conta-gotas”, Deus suscita um Papa cuja primeira saudação é a paz do Cristo Ressuscitado. Sua eleição ocorre exatamente no meio do caminho entre aquelas duas datas singulares: o dia 8 de maio, data da eleição, está justo no meio dos dias 5 de maio (da Regina Pacis) e 13 de maio (da Regina Fatimae). 

Não sendo isso pouco, o próprio Papa fez notar, em seu discurso inicial, que aquele dia 8 de maio era o dia da Súplica a Nossa Senhora do Rosário de Pompéia. Em Fátima, a Virgem também aparece como Senhora do Rosário.

Em 4 de agosto de 1918, o Papa Bento XV inaugurou, na nave esquerda da Basília de Santa Maria Maior, a estátua Ave Regina Pacis, um voto feito pelo Pontífice para suplicar o fim da Guerra – que veio, de fato, a terminar três meses depois. No sábado, dia 10 de maio de 2025, quando voltava de Genazzano, o Papa Leão XIV parou na Basílica de Santa Maria Maior para rezar diante do túmulo de seu predecessor, mas não só isso: depositou uma rosa branca e fez um ato de devoção diante da estátua Ave Regina Pacis.

Em 11 de maio, Domingo do Bom Pastor, no seu primeiro Regina Coeli, Leão XIV fez notar outra dessas impressionantes coincidências:

A imensa tragédia da segunda guerra mundial terminou há 80 anos, no dia 8 de maio, depois de ter provocado 60 milhões de vítimas.

No dia 8 de maio – mais uma vez. 

Ecoando, então, a voz de Bento XV, o nosso novo Papa faz um apelo à Rainha da Paz, pelo fim das guerras de sua própria época: 

Mas quantos outros conflitos existem no mundo! Confio este apelo sincero à Rainha da paz, para que o apresente ao Senhor Jesus e nos obtenha o milagre da paz.

Os detalhes encantam pela sua precisão e concórdia. 

Leão XIV e a visão de Fátima 

Ainda sobre Fátima, é importante notar que a visão do Terceiro Segredo até hoje permanece enigmática, mas pode estar começando a ganhar alguma luz. 

Um detalhe que tem cada vez mais chamado a atenção é a narrativa dos pastorinhos, em um primeiro momento, de que viram “um Bispo vestido de branco”, sobre o qual tiveram “o pressentimento” (mas não a certeza) de ser o Santo Padre. A afirmação relevante aqui é que eles dizem que viram isso “semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante”

Isso era difícil de entender, mas, talvez, agora já tenhamos visto o cumprimento dessa parte da profecia: seria esse “Bispo vestido de branco” o Papa Emérito Bento XVI, que escolheu manter a batina branca após a renúncia, mesmo não sendo mais Papa, o que terá gerado a insegurança (“tivemos o pressentimento”) dos pastorinhos em afirmar com certeza que era o Papa? 

Mas, se eles estavam vendo “como num espelho”, poderão ter visto um Bispo de branco e o seu duplo – algo como seu reflexo? Poderia isso significar a inusitada situação vivida pela Igreja, até pouco mais de dois anos atrás, de ter dois Papas vivos no mesmo lugar, um reinante e outro emérito?

Lembremos que o Papa Francisco, por opção declarada, também, apreciava apresentar-se apenas como “Bispo de Roma” e despojou-se de sinais pontifícios externos, exceto a batina branca – poderia, pois, ser uma imagem pálida de um Bispo de branco em um espelho…

Seja qual for o referencial, a visão do Terceiro Segredo de Fátima pode estar começando a ficar mais clara. Como dizia o grande mestre Leonardo Castellani, as profecias sempre podem ser explicadas… à medida que vão acontecendo.

Se for assim, a visão inteira pode estar tratando de três Papas, não apenas de um. Porque, em um momento posterior, ao descrever a subida de uma escabrosa montanha no cimo da qual existe uma cruz, os pastorinhos já não possuem mais apenas “um pressentimento” – eles afirmam, com certeza: é o Santo Padre.

O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho

Primeiro, “um Bispo vestido de branco”; em seguida, talvez o seu duplo, visto “como num espelho”. Por fim, um terceiro, o Santo Padre (aqui, com certeza) que atravessa uma cidade em ruínas – será isso o estado da Igreja hoje, repleta de confusão e de discórdia?

Isso poderia explicar as lágrimas do Papa Leão XIV? Roberto De Mattei fez a mesma pergunta, em 10 de maio, no seu artigo Leão XIV e o Futuro da Igreja5.

Como insistia São João Paulo II, a mensagem de Fátima é de misericórdia e de esperança – e o Papa que os pastorinhos vêem atravessar uma cidade em ruínas carrega consigo também uma promessa de santificação e de restauração, denotada pelas multidões de fiéis, de todas as posições, que ele arregimenta e que o seguem naquela visão, para onde quer que ele vá.

Leão XIV e os Sagrados Corações de Jesus e de Maria

Um acréscimo ainda mais encantador a essas considerações é observar que Robert Francis Prevost foi ordenado sacerdote em 19 de junho de 1982, um sábado, que, naquele ano, era a Festa do Imaculado Coração de Maria, comemorado no dia seguinte à Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Corações de Jesus e de Maria que estão sempre entrelaçados. 

A data da eleição de Leão XIV, 8 de maio, é a mesma na qual o Papa Pio XI decidiu publicar a Encíclica Miserentissimus Redemptor, de 8 de maio de 1928, escrita para expandir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus na Igreja e pedir atos de reparação aos fiéis do mundo inteiro. Pio XI aprovou, inclusive, uma oração de reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus, que foi publicada ao final da Encíclica.

Essa Encíclica Miserentissimus Redemptor, por sua vez, foi escrita para comemorar o aniversário de 30 anos, que seria no ano seguinte, de uma outra, publicada em 25 de maio de 1899, a qual urgiu a todos os Bispos do mundo que consagrassem a humanidade ao Sagrado Coração de Jesus, antes da entrada no novo século – consagração, de fato, realizada em 31 de dezembro de 1899. Trata-se da Encíclica Annum Sacrum, cujo autor é… Leão XIII.

Antes mesmo de tudo isso, São João Eudes foi o primeiro a obter permissão para celebrar liturgicamente uma Festa ao Coração de Maria. Isso foi feito, pela primeira vez, em Autun, na França… em 8 de maio de 16486.

Deixo para o leitor, em seu coração, o significado dessas coisas.

Leão XIV e a consagração do Panteão por São Bonifácio IV

Enganamo-nos, porém, se pensamos que termina por aqui. Como já podemos ver, os regalos da Providência começam a unir-se num belo bordado.

Na data da eleição de Robert Francis Prevost, a Igreja comemorava a memória de Bonifácio IV, um Papa Santo, que morrera em 8 de maio do ano 615. São Bonifácio IV é lembrado, especialmente, por ter salvado o Panteão Romano da destruição, ao pedir ao Imperador Focas que o doasse para a Igreja, para que pudesse ser transformado num templo. 

O pedido foi concedido pelo Imperador e Bonifácio restaurou o antigo monumento para transformá-lo em uma igreja. Para isso, mandou trazer 28 carroças de relíquias dos mártires das catacumbas de Roma e as dispôs sob o altar, sinalizando a vitória dos santos mártires sobre o paganismo que lhes ceifara a vida. 

São Bonifácio IV resolveu dedicar o novo templo à Virgem Maria e a todos Mártires. Com isso, o Panteão passou a ser chamado de Sancta Maria ad Martyres, como permanece até hoje, na condição de basílica. 

As crônicas da época contam que os demônios (porque os ídolos dos pagãos são demônios, como diz São Paulo – I Coríntios 10, 20) encrustados no Panteão há muito tempo gritavam horrivelmente enquanto Bonifácio rezava um exorcismo à porta do antigo templo pagão. A multidão não conseguia ficar de pé, de tanto medo – apenas o Papa ficou firme. Consumou o exorcismo e expulsou os demônios do Panteão, que saíram pelo óculo do teto com um estrondo.

É realmente um sinal da Providência que o Papa comemorado no dia da eleição de Leão XIV, isto é, no dia 8 de maio, tenha marcado seu Pontificado por um feito tão grandioso quanto a vitória sobre o paganismo pela consagração do maior dos templos pagãos à Virgem Maria e a todos os santos mártires – tema que, como já dissemos, é freqüente na pregação de Prevost. 

A consagração do Panteão foi realizada no dia 13 de maio do ano 609 – mais um 13 de maio, como em Fátima, séculos mais tarde.

O Papa Leão XIV fez sua primeira homilia, na Sistina, no dia 9 de maio, falando tanto do martírio quanto do paganismo dos nossos dias, que é o ateísmo prático e o secularismo. Disse que há ambientes “onde quem acredita se vê ridicularizado, contrastado, desprezado, ou, quando muito, suportado e digno de pena” e que muitos batizados […] acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático”. Em seguida, lembrou Santo Inácio de Antioquia, “conduzido como prisioneiro a esta cidade, lugar do seu iminente sacrifício”, onde veio a ser “devorado pelas feras no circo”, exemplo que Leão XIV utiliza para demonstrar o “compromisso irrenunciável para quem, na Igreja, exerce um ministério de autoridade: desaparecer para que Cristo permaneça […] gastar-se até ao limite”.

Em 11 de maio, na Cripta da Basílica de São Pedro, disse que devemos ser corajosos no testemunho que damos, com a palavra e principalmente com a vida: dando a vida, servindo, às vezes com grandes sacrifícios, para viver precisamente esta missão”.

Para isso, Leão XIV terá mais um bom patrono, cuja festa a Igreja comemorava exatamente no dia de sua eleição.

Leão XIV e a Mãe do Bom Conselho de Genazzano

Na tarde do sábado após a sua eleição, 10 de maio, o Papa Leão XIV saiu do Vaticano e foi a Genazzano, uma cidadezinha a sudeste de Roma, para consagrar o seu Pontificado a Nossa Senhora do Bom Conselho, venerada no Santuário daquela cidade. Há muitos séculos, o lugar encontra-se sob a guarda justamente da Ordem de Santo Agostinho, à qual o Papa pertence.

A devoção à Mãe do Bom Conselho sempre foi praticada por aqueles que precisam de sabedoria e prudência para tomar decisões. Como agostiniano que é, o Papa Leão XIV cultiva a devoção à Virgem de Genazzano.

Mas a história da Mãe do Bom Conselho de Genazzano nos traz um detalhe particular, que revela a singularidade de ter um Papa agostiniano hoje.

O santuário de Genazzano foi construído ainda no século IV, sobre um templo pagão dedicado à deusa Flora. Porém, com o passar do tempo, aquela igreja foi sendo esquecida e a construção começou a arruinar-se.

Nesse momento, uma viúva octogenária e muito piedosa, terciária da Ordem de Santo Agostinho, chamada Petruccia de Nocera, resolveu tomar a frente na sua restauração, contratando ela mesma os trabalhadores e os materiais, numa tentativa de estimular outros fiéis a ajudarem-na no empreendimento.

Mas ninguém se animou a segui-la, ocupados demais com suas próprias vidas. Petruccia não conseguiu continuar a obra sozinha e começou a rezar para que a Virgem tomasse “posse” daquela restauração.

Nesse momento, um milagre aconteceu: em 25 de abril de 1467, uma nuvem luminosa baixou sobre a cidade e uma imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços apareceu sobre a parede do santuário.

Muitos milagres e curas começaram a ocorrer diante da imagem da Senhora de Genazzano. Em pouco tempo, veio a ser descoberto (confirmado por enviados do Papa) que a imagem antes era venerada na Albânia, na cidade de Scutari, onde estava prestes a ser profanada pelos otomanos, durante uma invasão, mas foi milagrosamente trasladada pelos céus, sobre os mares, até descer em Genazzano.

Graças ao imenso milagre, a restauração do santuário foi concluída e, até hoje, essa continua sendo uma das grandes devoções dos Papas e de fiéis de todas as ordens, especialmente pais de família e homens públicos.

A bela história de Genazzano nos revela mais camadas de significado na decisão de Leão XIV de consagrar o seu Pontificado à Mãe do Bom Conselho.

Que dizer do fato, por exemplo, de que o santuário em Genazzano estava em ruínas e foi reconstruído por iniciativa de uma agostiniana? Hoje, o estado da Igreja Católica não é, nem de longe, a sombra do que já foi – estamos também um pouco em ruínas e muitas partes da Igreja estão desabando por causa de intrigas, por confusões doutrinais e morais, por heresias embaladas em papel de presente e por cismas práticos não declarados. 

Num momento como esse, Deus suscita um agostiniano como Papa, exatamente como suscitou a Serva de Deus Petruccia di Nocera (“Beata Petruccia”) séculos atrás, para reconstruir o santuário de Genazzano. E esse Papa, que se diz “um filho de Santo Agostinho” no primeiro discurso, vai consagrar o seu Pontificado precisamente à Mãe do Bom Conselho em Genazzano.

Será que esse Papa também vai reconstruir o Santuário de Deus, a Igreja, e restaurar o seu culto, tão maltratado ultimamente? Será que a obra de reconstrução desse Papa será acompanhada por um sinal de predileção da Virgem Maria, como em Genazzano? Já vimos, mais atrás, os sinais de predileção mariana que envolvem o dia da eleição de Leão XIV e fatos de sua vida.

Cinqüenta anos após a aparição em Genazzano, um outro agostiniano irá provocar uma das maiores divisões da história da Igreja: Martinho Lutero, monge agostiniano da Alemanha, em 1517, com a sua revolução protestante. E foi um Papa Leão que o excomungou, reafirmando a verdade com o carisma de Pedro: Leão X.

Vários Papas, como Leão XIV, foram devotos da Mãe do Bom Conselho de Genazzano e Pio XII chegou também a consagrar-lhe o Pontificado. Porém, um dos Papas devotos chama a atenção, por ter sido um dos que mais contribuiu para a expansão dessa devoção: precisamente Leão XIII.  

Gioacchino Pecci, o Papa Leão XIII, nascera e vivera sua infância em Carpineto Romano, uma cidade não muito longe de Genazzano. Ali aprendeu a ser muito devoto da Virgem de Genazzano e tornou-se, inclusive, membro da Pia União de Nossa Senhora do Bom Conselho, uma sociedade de almas devotas, premiada com indulgências, estabelecida pelo Papa Bento XIV, em 1753.

Em seu Pontificado, Leão XIII aprovou o escapulário branco de Nossa Senhora do Bom Conselho, elevou o Santuário de Genazzano ao status de basílica menor e instalou uma réplica da sua imagem no altar da Capela Paulina, no Vaticano.

Em 1903, pouco antes de sua morte, Leão XIII inseriu na Ladainha de Nossa Senhora a invocação “Mãe do Bom Conselho, rogai por nós!”

Mais de um século depois, ao fazer com que um de seus primeiros atos seja a consagração de seu Pontificado à Mãe do Bom Conselho de Genazzano, o Papa Leão XIV estabelece uma ligação espiritual com o seu Predecessor, Leão XIII, que fez a mesma coisa como um de seus últimos atos. Talvez ele queira retomar os seus passos, desde onde ele deixou.

Leão XIV e a nossa esperança

No último dia 3 de maio de 2025, eu escrevi uma Carta aos Cardeais Eleitores7, que foi enviada diretamente a alguns deles, mas que também foi publicada em um meio de grande circulação na Europa e no ambiente eclesiástico8.

Naquela Carta, após um diagnóstico da situação política do mundo e dos três esquemas de dominação global que se embatem em nossos dias, ressaltei que somente a Igreja tem condições de resistir a isso com a proposta corajosa e sempre atual do Evangelho.

Na ocasião, apelei aos Cardeais Eleitores para que elegessem um Papa forte, especialmente sob cinco aspectos que quis ressaltar (os quais não eram, todavia, os únicos): forte na preservação do depósito da fé, forte como Pastor, forte em caráter, forte na defesa da moral e forte em liturgia. Para cada um desses aspectos, dei uma longa explicação naquele texto, para o qual remeto o leitor.

Passada mais de uma semana desde sua eleição para Sucessor de Pedro, estou reconfortado de ver como o Papa Leão XIV tem respondido àquelas preocupações.

A respeito da força na preservação do depósito da fé, o Papa Leão XIV tem dito que quando as palavras assumem conotações ambíguas e ambivalentes e o mundo virtual, com a sua percepção alterada da realidade, ganha a dianteira sem medida, é difícil construir relações autênticas” e que a Igreja nunca se pode furtar a dizer a verdade sobre o homem e sobre o mundo, mesmo recorrendo, quando necessário, a uma linguagem franca, que pode provocar alguma incompreensão inicial. […] [N]a perspectiva cristã, a verdade não é a afirmação de princípios abstratos e desencarnados, mas o encontro com a própria pessoa de Cristo, que vive na comunidade dos crentes. Assim, a verdade não nos aliena, mas permite-nos enfrentar com maior vigor os desafios do nosso tempo” (Discurso ao Corpo Diplomático junto à Santa Sé, 16/05/2025). Quanta clareza de princípios!

Sobre a força como Pastor, para confirmar os irmãos na fé em tempos cada vez mais difíceis, pois não existe verdadeira pastoralidade sem defesa da verdade, o Papa Leão XIV diz que Deus, de modo particular, chamando-me através do vosso voto a suceder ao Primeiro dos Apóstolos, confia-me este tesouro para que, com a sua ajuda, eu seja seu fiel administrador (cf. 1 Cor 4, 2) em benefício de todo o Corpo místico da Igreja; para que ela seja cada vez mais cidade colocada sobre o monte (cf. Ap 21, 10), arca de salvação que navega sobre as ondas da história, farol que ilumina as noites do mundo. E isto não tanto pela magnificência das suas estruturas e pela grandiosidade dos seus edifícios – como estes monumentos em que nos encontramos – mas pela santidade dos seus membros, do povo que Deus adquiriu, a fim de proclamar as maravilhas daquele que o chamou das trevas para a sua luz admirável” (Homilia na Missa com os Cardeais Eleitores, 09/05/2025).

Com relação à força de caráter para resistir às perseguições, Leão XIV relembrou do compromisso irrenunciável para quem, na Igreja, exerce um ministério de autoridade: desaparecer para que Cristo permaneça, fazer-se pequeno para que Ele seja conhecido e glorificado (cf. Jo 3, 30), gastar-se até ao limite (Homilia na Missa com os Cardeais Eleitores, 09/05/2025) e que o testemunho do cristão hoje “não procura o consenso a qualquer custo” e “nunca separa a busca da verdade do amor com que humildemente a devemos procurar” (Discurso aos Jornalistas, 12/05/2025).

Sobre a força na defesa da moral, especialmente sobre a vida, a família e o matrimônio, Leão XIV já fez questão de relembrar que a “família [é] fundada na união estável entre o homem e a mulher, uma sociedade muito pequena certamente, mas real e anterior a toda a sociedade civil” e que “ninguém pode deixar de favorecer contextos em que a dignidade de cada pessoa é protegida, especialmente a das mais frágeis e indefesas, do nascituro ao idoso” (Discurso ao Corpo Diplomático junto à Santa Sé, 16/05/2025).

Por fim, a respeito da força em liturgia, o próprio Papa disse aos participantes do Jubileu das Igrejas Orientais: “Quanta necessidade temos de recuperar o sentido do mistério, tão vivo nas vossas liturgias, que abrangem a pessoa humana na sua totalidade, cantam a beleza da salvação e suscitam o enlevo pela grandeza divina que abraça a pequenez humana! E como é importante redescobrir, também no Ocidente cristão, o sentido do primado de Deus, o valor da mistagogia, da intercessão incessante, da penitência, do jejum, do pranto pelos pecados, próprios e de toda a humanidade (penthos), tão típicos das espiritualidades orientais! Por isso, é fundamental valorizar as vossas tradições sem as diluir, talvez por praticidade e comodidade, para que não sejam corrompidas por um espírito consumista e utilitarista. As vossas espiritualidades, antigas e sempre novas, são medicinais” (Discurso em 14/05/2025). 

De passagem, preciso ressaltar que, em minha Carta aos Cardeais Eleitores, afirmei justamente que, nesse assunto, os Cardeais dos ritos orientais poderão contribuir significativamente, pois suas Igrejas (mais do que nós, no Ocidente) conservaram melhor o seu patrimônio simbólico e litúrgico – entendem o seu benefício para as almas, sua capacidade de comunicar o mistério e também o seu poder”, uma percepção minha que, dias depois, vem a ser confirmada pelo próprio Santo Padre, em seu discurso.

Diante de tudo isso, posso me dizer aliviado, feliz e esperançoso. Talvez os Cardeais tenham elegido um homem que poderá ser uma síntese: alguém que responderia às preocupações pastorais enunciadas por Francisco, mas com o senso teológico de Bento XVI (que se dizia agostiniano) e a clareza doutrinal de Leão XIII.

Seja como for, um Papa que vem acompanhado por tantos sinais proféticos ao mesmo tempo deve, de nossa parte, receber orações intensificadas – esse é o nosso principal modo de estar com o Papa e de contribuir com a realização do empreendimento a ele confiado.

Conclusão

O motivo de esse texto ser tão longo é que ele é também comemorativo. Quis, com ele, fazer um louvor ao nosso novo Pontífice, o Papa Leão XIV, pelo início de seu Pontificado. 

Santo Agostinho, com o seu Cidade de Deus, foi o criador da Teologia da História: a leitura e interpretação dos sinais dos tempos à luz da Providência Divina. Na Ordem do universo – também da História, governada pela Providência – Santo Agostinho enxergava a Beleza, para ele inseparável da Verdade.

Verdade, Beleza e Ordem que nos conduzem à Unidade – que é Deus. Como sinal visível da Cidade de Deus, a Igreja caminha, una, para o Logos Divino, Cristo, seu Fundador. “In illo uno unum”, diz o lema de Leão XIV: “No Uno, somos um”.

Escrito em 17 de maio de 2025

Centenário da Canonização de Santa Teresinha do Menino Jesus
Véspera da Coroação do Sumo Pontífice, o Papa Leão XIV

  1. SYMONDS, Kevin. Leão XIII e a oração de São Miguel. Londrina, PR: Ed. Padre Pio, 2024; p. 44. ↩︎
  2. Conforme biografia publicada por Vatican News, disponível em:
    https://www.vaticannews.va/es/papa/news/2025-05/robert-francis-prevost-la-biografia-del-nuevo-papa.html ↩︎
  3. Op. cit., pp. 53 e 63. ↩︎
  4. Carta ao Cardeal Carta ao Cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estado, ordenando comunicação a todos os Bispos do mundo:
     https://www.vatican.va/content/benedict-xv/it/letters/1917/documents/hf_ben-xv_let_19170505_regina-pacis.html ↩︎
  5. Disponível em: https://www.robertodemattei.it/pt-br/leao-xiv-e-o-futuro-da-igreja/ ↩︎
  6. Vide: https://www.ewtn.com/catholicism/library/devotion-to-the-hearts-of-jesus-and-mary-its-origin-and-history-13690 ↩︎
  7.  Disponível em: https://taiguarafernandes.com/carta-aos-cardeais-eleitores-desde-as-periferias/ ↩︎
  8.  Disponível em: https://infovaticana.com/2025/05/05/carta-a-los-cardenales-electores-desde-las-periferias/ ↩︎

Prof. Taiguara Fernandes

Prof. Taiguara Fernandes

Advogado, professor, analista e palestrante, Taiguara Fernandes dedica sua vida aos estudos de temas como Filosofia, Religião, Política, Direito e História, há mais de 15 anos.

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Advogado, professor, analista e palestrante, Taiguara Fernandes dedica sua vida aos estudos de temas como Filosofia, Religião, Política, Direito e História, há mais de 15 anos.

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