
A carta a seguir foi publicada hoje, 5 de maio de 2025, no portal Infovaticana, uma das principais referências do jornalismo católico independente na Europa. Com mais de 1,2 milhão de acessos mensais, Infovaticana possui muita capilaridade entre prelados e membros do Colégio Cardinalício. A carta — em espanhol e em inglês — apresenta uma reflexão doutrinária, espiritual e geopolítica sobre o momento atual da Igreja. Trata-se de uma súplica respeitosa, com especial atenção à missão dos Cardeais no próximo Conclave. Segue a versão em português.
Eminentíssimos Cardeais da Santa Igreja Romana,
Com respeito filial e com humildade, escrevo desde o Nordeste do Brasil, uma região que, com razão, pode apresentar-se como “periferia do mundo”. Segundo os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a fundação governamental responsável por coletar esses dados, em 2023, cerca de 47,4% da população nordestina (mais de 27,5 milhões de pessoas) vivia abaixo da linha de pobreza. É uma região que ainda luta com a seca e com a fome, contra a baixa escolarização e com a falta de saneamento básico. Ultimamente, também tem amargado o crescimento do tráfico de drogas e do domínio das cidades pelas facções criminosas.
Mas é também uma região profundamente católica. Aqui nasceu a Irmã Dulce dos Pobres, canonizada; o Padre Cícero Romão e, talvez o conheçam mais, Dom Hélder Câmara. Séculos atrás, também acolheu os trinta mártires de Cunhaú e Uruaçu, canonizados. E o servo de Deus Frei Damião de Bozzano, apesar de italiano, tinha a alma e o amor do Nordeste brasileiro.
Portanto, escrevo desde uma periferia. E de uma periferia católica.
Peço perdão se pareço ousado em escrever, mas, como tanto se fala em uma “Igreja que escuta”, é preciso que alguém fale para ser escutado.
Vossas Eminências, nos próximos dias, decidirão a vida da Igreja pelos próximos anos. Escolherão o Papa que, talvez, nos conduza através do segundo milênio da Redenção. E, por isso, talvez seja uma boa ocasião para, com esperança e humildade, dirigir-me a este eminente Colégio de Cardeais.
Nos últimos tempos, temos experimentado, de algum modo, uma “urgência escatológica”. Se nos colocamos em perspectiva, pois mil anos para Deus são como um único dia (como disse o Chefe dos Apóstolos, São Pedro, na segunda carta, rememorando o Salmo 90), percebemos que estamos em uma urgência escatológica desde mais de um século.
As duas Guerras Mundiais e a perspectiva de uma Terceira, muito mais destrutiva e mortal, nos assombram. Pela primeira vez, podem se realizar materialmente as palavras do Apóstolo São João, no Apocalipse: a robótica pode garantir um exército de 200 milhões de cavaleiros (Ap 9,16) e as bombas nucleares realizam a saraivada de fogo e sangue que pode fazer perecer um terço da terra (Ap 8,7). Dizem que os Conclaves ocorrem diante do afresco do Juízo Final para que os Cardeais tenham aquilo em mente, mas nunca, em qualquer época, uma geração de Cardeais pôde ter uma visão tão palpável do fim dos tempos quanto vós.
Então, se me colocam em um “processo de escuta”, me tomo a liberdade de dizer que precisamos de um Papa forte, capaz de enfrentar o mundo inteiro pela justiça e pela verdade, pois os tempos não estão para fraquezas. Sim, Eminências, um Papa forte. Porque os senhores do mundo, nos principais impérios de hoje, que contendem entre si, são homens fortes, com muitos exércitos e riquezas, com projetos de dominação global dos quais eles próprios são apenas uma peça. Somente um Papa (sim, somente o Papa) consegue ter força contra isso – ninguém mais.
Façamos aqui um diálogo entre tradições religiosas. Os hindus falam que existem três castas entre os homens. Podemos tomar essas três castas como tipos simbólicos do homem, como fazia notar um grande filósofo de meu país, Olavo de Carvalho: os brahmana, casta sacerdotal, responsáveis pelas coisas do espírito – numa tipologia simbólica, poderiam envolver não apenas os sacerdotes, mas também os intelectuais; os kshatriya, a aristocracia guerreira; os vaishya, que administram os bens materiais e econômicos; e os shudra, que são os servos.
As três primeiras castas, se tomadas aqui como tipos simbólicos, podem nos fazer vislumbrar também três projetos de poder. No mundo de hoje, globalizado, esses projetos são também de dominação global – o que nos faz lembrar também daquilo que diz o Apóstolo São João em Apocalipse 13, 7-8:
- um projeto de globalismo pelo poder econômico, muito forte no Ocidente consumista, em que os megabilionários ditam até mesmo a destruição do livre mercado para não terem concorrência e suas ricas fundações e clubes de elite programam a realização disso através da destruição da sociedade, da atomização do homem, da subversão da moral natural, especialmente sexual, o que desequilibra a natureza humana para a criação do escravo consumista.
- um projeto de globalismo pelo poder militar, muito claramente discernido em Rússia e China, cuja oposição ao globalismo financista ocidental é fincada na alegação da “multipolaridade”, a qual, contudo, é notável por, no fim das contas, ter os “múltiplos polos” todos provenientes de um mesmo centro de poder – aquele que controla a força. Um vislumbre disso foi possível durante a pandemia de COVID-19, em que, surpreendentemente, o mundo inteiro, mesmo as chamadas “sociedades democráticas”, ensaiaram adotar a metodologia chinesa do “sistema de crédito social”, do domínio pela vigilância e do controle pelo lockdown, como fez notar o pensador italiano Giorgio Agamben – também nossas igrejas foram fechadas e tentou-se abolir o culto.
- um projeto de globalismo pelo poder religioso, como é possível vislumbrar com clareza no expansionismo islâmico, especialmente em Europa, expansão que se firma sobre a decadência moral e religiosa provocada pelo secularismo ocidental, como descreveu, na literatura, Michel Houellebecq, no seu afamado livro Submissão.
É esse o panorama da realidade a que vós, Eminentíssimos Cardeais, tereis de responder no próximo Conclave. Se o panorama acima parece escatológico é porque realmente o é – e a proximidade do Jubileu da Redenção, em 2033, com a proposta global da Agenda 2030 em paralelo a isso, apenas aumenta essa percepção.
Portanto, quando dissemos que precisamos de um Papa forte, é em múltiplos sentidos:
- Esse Papa precisará ser forte na defesa da verdade, isto é, naquilo que é próprio e mais essencial ao Sucessor do Apóstolo Pedro: a preservação do depósito da fé. Tem de ser assim, pois essa é a principal força do Papado. Força que o coloca imediatamente numa condição superior a todas as demais do mundo. Única força capaz de propor um novo, diferente e mais persuasivo projeto, para além daqueles três sedutores que discutimos acima, fazendo do Papa, realmente, segundo o antigo título, servo dos servos de Deus (servus servorum Dei): o projeto do Evangelho, de “renovar todas as coisas em Cristo” (Efésios 1,10, recordado como lema por São Pio X), Cristo que “faz novas todas as coisas” (Ap 21,5). São João Paulo II dizia que essa verdade “é por excelência a força pacífica e potente da paz, uma vez que ela se comunica pela sua própria irradiação, extravasando para fora de todos os constrangimentos” (Mensagem para o XIII Dia Mundial da Paz, 1980), pois “a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte” (Conc. Vaticano II, Decl. Dignitatis Humanae, 1). Só o Papa tem condições de realizar isso, pois só a ele, em suas próprias mãos, foi dada essa força: fortes in fide, dizia o Apóstolo Pedro (I Carta 5,9).
- Esse Papa precisará ser forte como Pastor, pois os tempos são duros. Nada nos fala mais ao coração em relação a isso do que a Mensagem de Fátima. Pastor para guiar a Igreja rumo ao Jubileu da Redenção, sem deixar o povo de Deus cair nas mãos de “falsos cristos”, que realizam “prodígios e sinais” (Mateus 24,24): os prodígios do transhumanismo, do prazer virtual onipresente, da imortalidade pela técnica, em suma, do “homem novo” não por Cristo, mas pelo próprio homem. Um engano. Por isso, toda pastoralidade sem defesa da verdade é também um engano, pois o modo próprio de o Papa ser pastor é confirmar os irmãos na fé (Lucas 22,32) – é o Jesus mesmo quem diz. Não há outro modo: nem pela política, nem pelos meios de comunicação de massa, nem pela ideologia, nem pela filantropia – apenas na fé.
- Esse Papa também precisará ser forte em caráter, para resistir às pressões do mundo e dos meios de comunicação de massa, que são porta-vozes das forças do mundo. Quando aqueles três projetos que discutimos acima percebem seu único opositor, movem as engrenagens que possuem para destruí-lo. Nessa hora, o Papa poderia capitular e, com isso, colocaria em risco o seu pastoreio. Mas ele poderá resistir e, por isso mesmo, elevar o povo de Deus consigo – realizando, nesse ponto, a função de Pontífice, criador de pontes entre Deus e o seu povo.
- Esse Papa precisará ser forte na defesa da moral, pois a lei natural é a única que está inscrita no coração de todos os homens (Romanos 2,14-15). Ela é o meio próprio pelo qual é possível falar com todos, pois todos possuem razão. A lei natural, como diz Santo Tomás, é a participação da razão humana na lei eterna – por isso, a destruição da noção de lei natural é a maneira pela qual os projetos globalistas escravizam os homens. Especialmente, a revolução sexual foi capaz de transformar o homem em ser puramente terreno e horizontalizado, sem visão vertical – cria-se um ser domesticado, escravo do consumismo e do materialismo, controlável pelo prazer sensível (da gula, da luxúria, de Mamon…). Por isso, toda capitulação na doutrina moral da Igreja sobre a sacralidade da vida humana, sobre a sexualidade, sobre o matrimônio e sobre a família, na verdade, apenas contribui para a escravização do homem e, em última instância, para a consolidação dos poderes terrenos que alienam o homem. Isso não é “diálogo com os nossos tempos”, mas auxílio ao que de pior existe em nossos tempos.
- Por fim, mas não por último, esse Papa também precisará ser forte em liturgia. Essa não é uma preocupação circunstancial ou acidental, salvo se nós mesmos já estivermos com a mentalidade do mundo, que vê tudo à luz da política e do materialismo, já não conseguindo enxergar em Deus o Senhor da História. Nossa relação com Ele, como Igreja, no culto que prestamos a Ele, é o que direciona todas as coisas. Pois o primeiro mandamento é esse, afinal: amar a Deus acima de todas as coisas. Se esquecemos de Deus, do culto que devemos a Ele, descumprimos o primeiro dos mandamentos.
E, ainda nesse sentido, não deveria nos surpreender se o mundo pareça cada vez mais alienado de Deus quanto mais a Igreja se aliena de seu culto, de sua liturgia, de seus símbolos – uma crítica que não faço eu, mas que foi expressa por São João Paulo II, com palavras duras, no Capítulo III da Carta Apostólica Vicesimus Quintus Annus e na conclusão da Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Os símbolos não são acidentes de menor importância, caso contrário, Cristo não ensinaria por parábolas. Os símbolos só não possuem mais valor para quem, imbuído de racionalismo, quer reduzir toda a realidade ao empirismo. Quando a Igreja abre mão de seus símbolos, está abrindo mão daquilo que melhor fala ao coração do homem, pois o homem não é apenas essa invenção racionalista e materialista dos tempos modernos; ele é também alma e coração, desejoso de Beleza e de Verdade. O símbolo é a única via capaz de compactar, para a razão e para o coração do homem, realidades maiores que ele mesmo – e o homem descompacta esses símbolos e perscruta seus significados em sua alma (para que não se diga que estamos sendo espiritualistas demais, os termos compactação e descompactação são aqui tomados da ciência política de Eric Voegelin, que entendiam muito bem o papel dos símbolos para a busca da Ordem ao longo da História).
A Igreja precisa do patrimônio de seus símbolos, os quais também fazem parte do seu depósito, especialmente aqueles símbolos utilizados para prestar culto a Deus e que, ao longo da história, foram gestados para compactar a percepção cada vez mais profunda de realidades muito superiores – ocorre aqui um desenvolvimento orgânico do símbolo em uma comunidade viva. O Povo de Deus, se é um povo, possui também os símbolos pelos quais se comunica, mas não apenas entre si – com Deus também, que faz parte da Comunidade Primordial do Ser com o homem (para usar outro conceito de Voegelin), o que é ainda mais exato quando falamos da Igreja, que é seu Corpo Místico. E é com esses símbolos que a Igreja demonstra sua beleza, sua força, seu vigor, sua vida, sua capacidade de se comunicar e a centralidade da Eucaristia, que é Deus conosco. A riqueza de símbolos é sinal do crescimento na compreensão dos mistérios divinos, portanto, de nossa maior proximidade a ele. A pobreza simbólica é sinal de decadência, não de avanço. Voegelin chama isso de amnésia, que identifica como perda da consciência de participação na ordem transcendente — e está certo.
Nesse sentido, os Cardeais dos ritos orientais poderão contribuir significativamente, pois suas Igrejas (mais do que nós, no Ocidente) conservaram melhor o seu patrimônio simbólico e litúrgico – entendem o seu benefício para as almas, sua capacidade de comunicar o mistério e também o seu poder.
Eminências, essa carta já vai longa. Haveria muito mais o que dizer sobre o Papa forte que precisamos e sobre os diversos aspectos a respeito dos quais ele precisaria ser forte, mas não é meu propósito escrever um tratado sobre o Papado de nossos dias, que Vossas Eminências saberão discernir muito melhor do que eu.
Quis me concentrar naqueles aspectos que, em minha visão (de um leigo, um homem mais ou menos jovem, recém-chegado à idade de Cristo, casado, pai, advogado, jornalista, um católico que vive no mundo), seriam os mais importantes – é uma carta, uma comunicação e um apelo filial, um simples e humilde contributo, desde as periferias, para vossa escuta. E espero que, de algum modo, seja de ajuda.
Rezo a Deus por cada um de vós e para que Deus ilumine a vossa decisão.
Que a Virgem Maria Santíssima, mãe da Igreja, e São José, seu Guardião, conduzam vossas mentes e corações.
Nossas esperanças estão convosco – não só desde as periferias, mas do mundo inteiro.
Escrito em João Pessoa, Paraíba, Nordeste do Brasil.
3 de maio de 2025, no Primeiro Sábado do Mês de Maria.
Taiguara Fernandes de Sousa